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Viúvas almodovarianas

É muito comum a metáfora do “Noivo” para explicar a relação da igreja com Jesus Cristo. Claro que não é noivo no sentido carnal, além da “Noiva” representar toda a igreja – porém, o amor das beatas muitas vezes lembra uma paixão humana.

Quando o noivo morre, a noiva vira viúva, certo? Na sexta-feira, em Monte Santo, fiquei impressionada com esta senhora, compungida e altiva carregava o caixão do Senhor Morto, como uma viúva almodovariana.

Foto: Luana Ribeiro

Toda de negro, bolsa chamativa, arrematada com o lenço vermelho e amarelo no pescoço, scarpin alto e_ como um viúva que se preze_ grandes óculos escuros, ela me chamou atenção com seu misto de devoção e orgulho da sua fé.

Foto: Luana Ribeiro

Depois dela, já na Matriz, vi outra viuvinha, tão dedicada quanto, recolhida em seu luto – sempre ao pé do caixão do Senhor Morto. O detalhe “Almodóvar”, que enfeita o preto total: a transparência.

Foto: Luana Ribeiro

Nesses casos, até pelo respeito que a situação exige, o estilo não parece ser intencional, e sim resultado da diligência e da “paixão” com que essas fiéis levam seu ofício. Mas, obviamente, é digno de nota. Fica o registro.

Moda com sotaque

Ontem fui ver a tradicional procissão de Monte Santo, que fica a 352 Km de Salvador. Às 4h da manhã, as matracas anunciam o início do percurso pelo pedregoso e íngreme Caminho de Santa Cruz, com cerca de 4 Km através da Serra do Piquaraçá, trazendo na volta as imagens do Senhor Morto, São João Evangelista e Nossa Senhora da Soledade para a Igreja Matriz.
 
Depois de todo essa verdadeira via-crúcis, encontrei a tímida Stephany (15) e a faladeira Jôh (16), conversando na praça. Como esta mesmo disse, elas “se vestem como as baianas, de shortinho e tênis”. Não qualquer shortinho, nem qualquer tênis, é claro – isso fica claro no All Star de cano alto e cadarço rosa de Stephany e no seu short de cintura alta, verdadeira coqueluche, pelo menos em Salvador.  
Foto: Luana Ribeiro

As tendências chegam onde menos se espera. “A gente lê muito as revistas de moda, mas aqui em Monte Santo não dá para usar tudo que vê, senão vão chamar a gente de ridícula”, explica Jôh com seu sotaque característico. Interessante ver como as pessoas se apropriam da moda e adaptam ao clima da cidade e ao seu estilo de vida. Penso que moda de rua é bem isso: local e universal ao mesmo tempo.