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A dança da sereia

Foto: Luana Ribeiro

Quando eu vi Inaê Moreira (20), a primeira coisa obviamente que me chamou atenção foi o verde da sua calça, que combina bastante com essa manhã cinzento (e frio) que fez hoje. Depois, claro, eu vim reparar na sobreposição de listras (um detalhe simples, mas incrível!) e no discreto piercing no nariz. Juntando isso tudo ao tênis e à mochila, ela estava com uma pegada bem street, típico de uma estudante cheia de afazeres.

 

Foto: Luana Ribeiro

 

O palpite de “estudante cheia de afazeres” veio também da pressa com que a moça saía do campus de Ondina da UFBA. E eu acertei: ela faz Dança lá – e em outras lugares também. Inaê faz parte da Cia Obcena de Arte . Ela me convidou para conferir, em breve um evento especial que eles vão organizar, uma intervençaõ urbana,o Observatório de Perfomances, que vai rolar nos dias 24 e 25 de junho, no centro da cidade. Quem quiser mais detalhes é só dá uma clicada no link ali em cima.

“Acho que me visto assim para causar, para as pessoas saberem que eu sou uma artista. Como trabalho com arte de rua, é legal as pessoas olharem e não verem uma passante qualquer”, afirma ela. Tá certo – não à toa, ela veio parar aqui no blog. Mas falando de seu visual, acabei não contando uma das coisas que mais me surpreenderam nela: o nome. Inaê, para quem não sabe, é uma das formas de chamar Iemanjá. E se a música nos leva a prestar atenção no canto da sereia, por aqui, o negócio é sua dança.  

 

 

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O rei da rua

Foto: Luana Ribeiro

Cantando um refrão impublicável, acompanhado de umas 15 estudantes repetindo atrás. Essa foi a primeira visão que tive de Carlos Brito Silva (26), o Ném. A trilha sonora era nada mais, nada menos que um sucesso de duplo sentido da banda de pagode Saiddy Bamba. Provavelmente, aliás, ele já deve ter a coreografia na ponta dos pés, afinal, Ném é dançarino e  ensaia com duas galeras diferentes os sucessos do pagode, “pra chegar nas festas quebrando”. Mas para ganhar dinheiro, ele faz “uns bicos aí na Sete Portas”, conta cheio de ginga, como quem bem sabe dançar conforme a música.

A dança, diga-se de passagem, é o que mais faz brilhar o olho de Ném – que só é marrento na a foto, mas é todo sorridente – e não à toa, comanda também o seu visual. “Eu me visto assim ou de basqueteiro. Essas marcas tipo Cyclone deixei de usar, porque no shopping os seguranças ficam implicando “. O look de hoje foi escolhido “por causa da cor”, mas também por ser confortável “demais” para dançar, ele me conta.

Eu particularmente gosto das cores do Brasil, das chaves penduradas no pescoço e, principalmente da caixa de som de mp3 portátil, devidamente acompanhado do controle (!), que me lembrou o pessoal do break com o indefectível radiogravador sobre os ombros.

Foto: Luana Ribeiro

Ném ilustra como a influência do movimento black é presente na cidade, principalmente nos bairros de periferia, que está na roupa com inspiração no basquete; na música (“eu ouço hip-hop, pagode”) e nos costumes (o mp3 speaker é um exemplo). A diferença, nesse caso está no dispositivo, que evoluiu tecnologicamente – mas que retoma o design e o uso de antes. “Eu ando pra cima e pra baixo com ele”, diz risonho, justificando: “eu sou pagodeiro, né?”.

Enquanto a gente conversava, as meninas de lá do início do post seguiram para a escola. Mas não ficamos em paz: a todo momento paravam grupos de estudantes amigos dele, conhecidos acenavam de moto, gritavam seu nome. “Todo mundo me conhece, eu sou muito querido por aqui. Na linguagem da malandragem, eu sou o frente”,  anuncia professoral, e explica: “o frente é o que ajuda a galera. Eu ajudo todo mundo aí do ICEIA (cujas paredes grafitadas estão ao fundo), do Getúlio; como sou o mais velho, resolvo os problemas…”. Na moda, na dança ou na prosa, Ném é o rei da rua.

Ceci n’est pas une pantalon Restart

Foto: Luana Ribeiro

 Tradução: Isso não é uma calça “Restart”.

Isso é uma calça “Léo Santana“, de acordo com Cristofer de Oliveira (23), que diz ser o cantor sua grande inspiração no visual. Não é a primeira vez que um vocalista de pagode aparece por aqui como referência de moda, mas o estilo de Cristofer – que é modelo aliás, dá pra ver, né? – é diferente do que já foi ilustrado aqui.

Com essa camiseta de gola “V” profunda e a calça justa, essa outra vertente pagodeira tem uma pegada mais sensual, que realça o corpo dos moços, todos trabalhados na malhação. O que me chama a atenção no caso de Cristofer é o toque moderninho dado pelo amarelo da calça (acompanhado das legítimas no mesmo tom!!) e a estampa listrada estilo Chanel – um clássico – que levam o look para outro lado.

Daí a brincadeira do título, que faz referência a famosa pintura do surrealista Magritte, que brinca com a noção de que uma imagem não é uma realidade e sim sua representação. A calça de Cristofer não é “Restart“, necessariamente. Ela vem de todo um processamento de referências feito por quem produz moda hoje em dia, que faz com que vários grupos se apropriem de uma mesma peça e  ela ganhe um novo significado.

Nepotismo – Junior Figueiroa

 

Foto: Luana Ribeiro

“Antenado”. É assim que Junior Figueiroa (17) define seu estilo. Isso não se aplica somente à moda, faço questão de ressaltar, afinal meu colega de trabalho é também ligadíssimo quando o assunto é profissional, que o diga nosso chefe.

Foto: Luana Ribeiro

Acho ele uma figuuura. Sempre sabe de tudo, tem opinião sobre tudo, e é muito querido por aqui. Daquelas pessoas que sempre chamam atenção no ambiente, e isso deve-se também ao visual, claro. Hoje, ele estava numa mistura total de cores (amarelo, vermelho, laranja, bege e azul) e de estilo (meio mauricinho, meio descolado). “Adoro camiseta de gola V”, ri ele, dizendo o item que é sua marca registrada. Faltaram os wayfarer coloridos , sempre presentes em seus looks e que são uma verdadeira febre em Salvador, vendendo às pencas nas óticas… e nos camelôs. “Procuro estar informado e me inspiro muito no que vejo na televisão”. Mas tudo que sua antena capta, o coração não necessariamente captura: “Eu gosto de ser diferente”, afirma.

Meio bossa nova, meio rock and roll

Foto: Luana Ribeiro

Você diria que esta garota, que calmamente lê um livro em um banquinho lá no Instituto de Letras, é a DJ Paranóia?

Nem eu.

Esse não a única antítese de Marina Vieira (18). Baseada em seu visual rocker (olha a camiseta “God Save the Queen”, o preto, uma pegada meio andrógina, de calça e tênis masculinos), perguntei o que ela costuma ouvir: “eletrônico, rock, bossa nova…”  Imagina só, quanta diversidade! Outras influências de Marina são as coisas que ela via em Lisboa, onde viveu por muitos anos.

Foto: Luana Ribeiro

Mais de Marina, não sei. Super tímida, de poucas palavras, ela fala mais através de sua postura e de seu estilo. E da música também. Vai lá: twitter.com/djparanoiaprod