Tempo bom

“Logo hoje que eu tô de vermelho, é dia de Iansã”, riu Débora Alcântara (30), com a coincidência sagrada. Porque aqui em Salvador, muita gente se veste de acordo com o seu orixá de cabeça. Não é o caso de Débora. A semelhança com a Rainha dos Raios é a influência do seu clima. “Eu me visto pelo meu humor”, esclareceu ela, entre tempo bom e tempo ruim. Pelo seu visual coloridíssimo, deve estar com o astral lá em cima!

Foto: Luana Ribeiro

Falando em coincidências, descubro que estudou na Facom (UFBA), como esta foca que vos fala, e é jornalista do A Tarde . “Comunicação? Ah, vai ser nossa colega”. Eu deveria ter imaginado – a interceptei bem perto da saída do jornal, depois de tê-la visto passar entre a pequena multidão que sai da passarela e dos pontos de ônibus da região. E não tinha como não ter visto, com a combinação quase mexicana de vermelho e amarelo.

Depois, já conversando com ela, fui vendo os detalhes: espadrilhas (tendência que deve prosseguir no verão 2012),  colar e anel azul, a bolsa grandona com estampa tropical e a saia também estampada. Apenas descrevendo, pode parecer um verdadeiro carnaval, mas tem toda uma sutileza da coordenação de cores. O vermelho (liso e mais fechado) e o azul aparecem nas florzinhas da saia, a bolsa tem fundo preto, as bijuterias são super discretas e as espadrilhas são de um modelo clássico. Ao contrário do que ela imagina, duvido que pensem mal do seu look.

Um exemplo é a saia, grande destaque da produção. Além de linda, é dupla face. “A última vez que usei essa saia, foi pelo lado de dentro”. E adivinha a cor predominante? Azul – como as flores, o anel e o colar – se insinuando por baixo do amarelo. Deixa que digam que é Carnaval. A moça entende do samba.

Foto: Luana Ribeiro

Rockwell Street Style

Foto: Luana Ribeiro

 A arte imita a vida. Ou a arte imita a vida?

A polêmica é velha, tanto como o ovo e a galinha. Mas me questionei sobre isso quando vi Monique dos Santos (7), que vi na Estação Pirajá, diáfana na contraluz, parecendo ter saído diretamente desta ilustração de Norman Rockwell.

Monique, ou melhor, a mãe dela, fez algumas adaptações “tropicais”: a estampa de flores do vestido lavanda – uma graça, esse tom – as flores em cores vivas em chuquinhas na cabeça e sandálias, claro. Mas a semelhança estava no estilo old school de Monique. Adoro ver criança vestida de criança!

Foto: Luana Ribeiro
Foto: Luana Ribeiro
  
Um detalhe interessante é que Rockwell fazia suas ilustrações baseadas em fotos em pb, colorindo  a seu critério e modificando as cenas, acrescentando ou retirando elementos de acordo com sua imaginação. Seus personagens, portanto, vinham da realidade – ao mesmo tempo que seus desenhos criaram um imaginário muito específico para todos que veêm suas ilustrações. Provavelmente nem ela e sua mãe conhecem o trabalho de Rockwell (quem sabe, né?). Não foi ele que inventou o estilo dos seus personagens, mas retratando-os, ele os transformou em uma fantasia pessoal, que acaba inspirando quem conhece seu trabalho. Retomar esse universo é ser retrô. Na moda, é um movimento interessante e muitíssimo comum atualmente. Mas ser retrô sem querer é um encanto. Foi isso que vi em Monique.

O nome Real

Depois de um longo tempo (15 diaas!!) sem postar nada, já chego fazendo uma confissão. Andei longe esse período devido a alguns problemas – técnicos, vá lá – e ando com a cabeça oca, oca. Tão oca que acabei esquecendo o nome completo dessa moça aqui em baixo (imperdoável). Lembro que era Daiana – não esqueci tudo, talvez por causa sua xará, também muito entendida de elegância.

Foto: Luana Ribeiro

Tal qual a de lá, a nossa lady aqui também tem um estilo básico e clássico. Gosto bastante. Chamou minha atenção por pequenos detalhes que tornam a roupa interessante – cinto de lacinho, o relógio classicíssimo e brilhante e a pegada “alfaiataria” da calça cenoura (adoro a textura do tecido e os “punhos”).

Foto: Luana Ribeiro

Um ótimo look para trabalhar e ficar chique (encontrei Daiana saindo do Salvador Shopping, que fica na região do Iguatemi, cheio de escritórios, bancos).”Eu gosto de moda, mas gosto de um estilo confortável, básico”. Básica, é verdade. Mas o seu diferencial é um frescor: cabelos soltos, pouco (ou nada de maquiagem), uma certa alegria jovem. Quem fotografa street style, creio, está em busca disso. De uma coisa que transcende só a roupa. No caso dela, vi essa altivez com doçura, mistura difícil de achar. Porte e (pre)nome nobre, ela tem. Só falta saber seu nome real (coloca aí nos comentários, Daiana!)

ADENDO: Aí que dia desses eu vi um post muito engraçado da Garance Doré , em que ela ironiza essa coisa da moda de rua, dando dicas para quem quer figurar nos blogs da vida –  e ela saca da coisa, afinal ela mesmo fotografa e namora The boss Scott Schuman, o maior nome da fotografia street style. Vale a pena a leitura (tá em inglês, nada que são google não resolva).

A dança da sereia

Foto: Luana Ribeiro

Quando eu vi Inaê Moreira (20), a primeira coisa obviamente que me chamou atenção foi o verde da sua calça, que combina bastante com essa manhã cinzento (e frio) que fez hoje. Depois, claro, eu vim reparar na sobreposição de listras (um detalhe simples, mas incrível!) e no discreto piercing no nariz. Juntando isso tudo ao tênis e à mochila, ela estava com uma pegada bem street, típico de uma estudante cheia de afazeres.

 

Foto: Luana Ribeiro

 

O palpite de “estudante cheia de afazeres” veio também da pressa com que a moça saía do campus de Ondina da UFBA. E eu acertei: ela faz Dança lá – e em outras lugares também. Inaê faz parte da Cia Obcena de Arte . Ela me convidou para conferir, em breve um evento especial que eles vão organizar, uma intervençaõ urbana,o Observatório de Perfomances, que vai rolar nos dias 24 e 25 de junho, no centro da cidade. Quem quiser mais detalhes é só dá uma clicada no link ali em cima.

“Acho que me visto assim para causar, para as pessoas saberem que eu sou uma artista. Como trabalho com arte de rua, é legal as pessoas olharem e não verem uma passante qualquer”, afirma ela. Tá certo – não à toa, ela veio parar aqui no blog. Mas falando de seu visual, acabei não contando uma das coisas que mais me surpreenderam nela: o nome. Inaê, para quem não sabe, é uma das formas de chamar Iemanjá. E se a música nos leva a prestar atenção no canto da sereia, por aqui, o negócio é sua dança.  

 

 

Green (and black) days

Foto: Luana Ribeiro

 Já há algum tempo venho reparado na, hmmm, incidência de adolescentes no Salvador Shopping com esse estilo rocker que Lidiane de Souza e Damaris Santos (ambas 15 anos) exibem. Elas me contam então que é uma movimentação, a “Graminha”, uma concentração de jovens roqueiros no gramado do estacionamento, que se reúnem para conversar, beber, ouvir música. “A união se deu por causa do gosto musical”, diz Damaris, que me revela que o point era do outro lado do shopping. “A gente ficava no outro estacionamento, porque lá dentro as pessoas discriminavam…Só que os seguranças começaram a implicar, então viemos pra cá”.

A uma certa altura, um carro da polícia passa, devagar, observando a aglomeração do pessoal. “É só pra olhar, a galera não faz nada, não”, diz Damaris, garantindo que a Graminha é um local pacífico. O visual com caveirinhas, preto (nas unhas, nos olhos, na roupa), referências de rebeldia nas frases, nos ícones e estampas pode passar uma impressão diferente da realidade.

Foto: Luana Ribeiro

Achei curioso, além desses elementos tradicionais do estilo, encontrar a estampa de Che Guevara na camiseta de Lidiane. Não por ser incomum, propriamente, mas por não ter ligação direta com o mundo do rock. Mostra de como a moda se apropria de diversas imagens para criar sua mensagem. Não à toa, Damaris esclarece: “A principal influência é o estilo musical que a gente gosta”, o que confirma que os ícones não são, necessariamente, usados por sua mensagem/conceito literal.

Enquanto conversava com as duas, percebi a presença quase inquisidora de Amanda Oliveira, que acabou indo também para frente da câmera. Ela acrescenta outro acessório à lista: os óculos escuros, que também carrega muitos simbolismos.

Por último, já com as três reunidas, percebi a coincidência dos braceletes fechando o pulso e declarando em preto o universo das meninas. Coincidência? Com a igualdade na diferença típica dos grupos: é assim que dou meu até logo à Graminha.

Foto: Luana Ribeiro

Estilo Curinga

Foto: Luana Ribeiro

 “Uma forma de se libertar dos padrões”. É assim que a pernambucana Isabel Freitas (30), define sua relação com a moda. Dá para ver isso facilmente em seu visual, misturado e confortável, bem street mesmo.Gosto especialmente da combinação do tênis com a saia florida, em tons de rosa diferentes.

Liberdade aliás é tema fundamental em sua vida já que ela é coringa(ou curinga) do Teatro do Oprimido, método teatral criado por Augusto Boal nos anos 70, que pretende usar o teatro para promover mudanças na sociedade, no qual os oprimidos sejam incentivados a lutar por sua evolução. Nesse contexto aí, o coringa é um personagem distanciado que pode subverter as cenas, pedir para serem feitas de modo diferente, de modo a ressaltar um certo ponto de vista. Ele tem a função de um orientador. Isabel trabalha com a ONG CEIFAR, que em Salvador, atua na comunidade de Beiru/Tancredo Neves.

Foto: Luana Ribeiro

Buscando cada vez mais se capacitar, ela estuda Pedagogia na Ucsal, um curso que definitivamente tem muito a ver com o trabalho que ela desenvolve. Nessa onda de liberdade, Isabel também carrega no braço uma tatuagem de um sabiá-laranjeira, que é a ave símbolo do Brasil. Muito apropriado, não é?

Foto: Luana Ribeiro

Porque moda também é terapia

Foto: Luana Ribeiro

Posturologia e Cinesiologia Clínica de Brunnstrom. Esses são os títulos que Luciano Guedes (23) carrega na foto aí em cima, como um bom estudante de fisioterapia que é. Poderia ser algo relacionado à moda, mas ele esclarece: “tem a ver comigo, mas eu gosto mesmo é da área de saúde”.

Isso não impede, é claro, que ele use seu próprio corpo para expressar seu gosto por moda. Achei muito criativo o look branco total típico de estudantes dessa área, aditivado pelo modelo da calça, pela echarpe cinza e pelo casaco em off-white – acho essa cor, aliás, chiquérrima e quebra qualquer monotonia de um look todo branco. E é tendêeencia para o inverno 2011  .

Foto: Luana Ribeiro

 

Tão antenado assim, Luciano conta que sua principal referência é o que vê na tv, nos figurinos das novelas. Essas informações são aliadas ao clima, “esse mudar de estação o tempo todo” bem característico de Salvador. Outras fontes são duas amigas que estudam Design de Moda lá na Faculdade da Cidade – um dos poucos cursos de graduação em moda da Bahia, aliás – e a recíproca é verdadeira: “elas também pescam algumas coisas de mim, me fazem de cobaia”.

Olha aí, cobaia também não é coisa da área de saúde? Pronto. Para voltar à fisioterapia, não sei se o moço já está expert em posturologia – mas postura ele tem de sobra.

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