A dança da sereia

Foto: Luana Ribeiro

Quando eu vi Inaê Moreira (20), a primeira coisa obviamente que me chamou atenção foi o verde da sua calça, que combina bastante com essa manhã cinzento (e frio) que fez hoje. Depois, claro, eu vim reparar na sobreposição de listras (um detalhe simples, mas incrível!) e no discreto piercing no nariz. Juntando isso tudo ao tênis e à mochila, ela estava com uma pegada bem street, típico de uma estudante cheia de afazeres.

 

Foto: Luana Ribeiro

 

O palpite de “estudante cheia de afazeres” veio também da pressa com que a moça saía do campus de Ondina da UFBA. E eu acertei: ela faz Dança lá – e em outras lugares também. Inaê faz parte da Cia Obcena de Arte . Ela me convidou para conferir, em breve um evento especial que eles vão organizar, uma intervençaõ urbana,o Observatório de Perfomances, que vai rolar nos dias 24 e 25 de junho, no centro da cidade. Quem quiser mais detalhes é só dá uma clicada no link ali em cima.

“Acho que me visto assim para causar, para as pessoas saberem que eu sou uma artista. Como trabalho com arte de rua, é legal as pessoas olharem e não verem uma passante qualquer”, afirma ela. Tá certo – não à toa, ela veio parar aqui no blog. Mas falando de seu visual, acabei não contando uma das coisas que mais me surpreenderam nela: o nome. Inaê, para quem não sabe, é uma das formas de chamar Iemanjá. E se a música nos leva a prestar atenção no canto da sereia, por aqui, o negócio é sua dança.  

 

 

Green (and black) days

Foto: Luana Ribeiro

 Já há algum tempo venho reparado na, hmmm, incidência de adolescentes no Salvador Shopping com esse estilo rocker que Lidiane de Souza e Damaris Santos (ambas 15 anos) exibem. Elas me contam então que é uma movimentação, a “Graminha”, uma concentração de jovens roqueiros no gramado do estacionamento, que se reúnem para conversar, beber, ouvir música. “A união se deu por causa do gosto musical”, diz Damaris, que me revela que o point era do outro lado do shopping. “A gente ficava no outro estacionamento, porque lá dentro as pessoas discriminavam…Só que os seguranças começaram a implicar, então viemos pra cá”.

A uma certa altura, um carro da polícia passa, devagar, observando a aglomeração do pessoal. “É só pra olhar, a galera não faz nada, não”, diz Damaris, garantindo que a Graminha é um local pacífico. O visual com caveirinhas, preto (nas unhas, nos olhos, na roupa), referências de rebeldia nas frases, nos ícones e estampas pode passar uma impressão diferente da realidade.

Foto: Luana Ribeiro

Achei curioso, além desses elementos tradicionais do estilo, encontrar a estampa de Che Guevara na camiseta de Lidiane. Não por ser incomum, propriamente, mas por não ter ligação direta com o mundo do rock. Mostra de como a moda se apropria de diversas imagens para criar sua mensagem. Não à toa, Damaris esclarece: “A principal influência é o estilo musical que a gente gosta”, o que confirma que os ícones não são, necessariamente, usados por sua mensagem/conceito literal.

Enquanto conversava com as duas, percebi a presença quase inquisidora de Amanda Oliveira, que acabou indo também para frente da câmera. Ela acrescenta outro acessório à lista: os óculos escuros, que também carrega muitos simbolismos.

Por último, já com as três reunidas, percebi a coincidência dos braceletes fechando o pulso e declarando em preto o universo das meninas. Coincidência? Com a igualdade na diferença típica dos grupos: é assim que dou meu até logo à Graminha.

Foto: Luana Ribeiro