Estilo Curinga

Foto: Luana Ribeiro

 “Uma forma de se libertar dos padrões”. É assim que a pernambucana Isabel Freitas (30), define sua relação com a moda. Dá para ver isso facilmente em seu visual, misturado e confortável, bem street mesmo.Gosto especialmente da combinação do tênis com a saia florida, em tons de rosa diferentes.

Liberdade aliás é tema fundamental em sua vida já que ela é coringa(ou curinga) do Teatro do Oprimido, método teatral criado por Augusto Boal nos anos 70, que pretende usar o teatro para promover mudanças na sociedade, no qual os oprimidos sejam incentivados a lutar por sua evolução. Nesse contexto aí, o coringa é um personagem distanciado que pode subverter as cenas, pedir para serem feitas de modo diferente, de modo a ressaltar um certo ponto de vista. Ele tem a função de um orientador. Isabel trabalha com a ONG CEIFAR, que em Salvador, atua na comunidade de Beiru/Tancredo Neves.

Foto: Luana Ribeiro

Buscando cada vez mais se capacitar, ela estuda Pedagogia na Ucsal, um curso que definitivamente tem muito a ver com o trabalho que ela desenvolve. Nessa onda de liberdade, Isabel também carrega no braço uma tatuagem de um sabiá-laranjeira, que é a ave símbolo do Brasil. Muito apropriado, não é?

Foto: Luana Ribeiro

Porque moda também é terapia

Foto: Luana Ribeiro

Posturologia e Cinesiologia Clínica de Brunnstrom. Esses são os títulos que Luciano Guedes (23) carrega na foto aí em cima, como um bom estudante de fisioterapia que é. Poderia ser algo relacionado à moda, mas ele esclarece: “tem a ver comigo, mas eu gosto mesmo é da área de saúde”.

Isso não impede, é claro, que ele use seu próprio corpo para expressar seu gosto por moda. Achei muito criativo o look branco total típico de estudantes dessa área, aditivado pelo modelo da calça, pela echarpe cinza e pelo casaco em off-white – acho essa cor, aliás, chiquérrima e quebra qualquer monotonia de um look todo branco. E é tendêeencia para o inverno 2011  .

Foto: Luana Ribeiro

 

Tão antenado assim, Luciano conta que sua principal referência é o que vê na tv, nos figurinos das novelas. Essas informações são aliadas ao clima, “esse mudar de estação o tempo todo” bem característico de Salvador. Outras fontes são duas amigas que estudam Design de Moda lá na Faculdade da Cidade – um dos poucos cursos de graduação em moda da Bahia, aliás – e a recíproca é verdadeira: “elas também pescam algumas coisas de mim, me fazem de cobaia”.

Olha aí, cobaia também não é coisa da área de saúde? Pronto. Para voltar à fisioterapia, não sei se o moço já está expert em posturologia – mas postura ele tem de sobra.

As borboletas prateadas

Sábado é um bom dia é um bom dia para estréias, né não? Pois hoje inauguro a seção “Detalhes tão pequenos…” com recortes interessantes, pequenos detalhes que fazem diferença. Uma bolsa, um sapato, uma pulseira, borboletas…

Borboletas?

Monique dos Santos (19), vendedora de uma pequena loja de roupas na Brasilgás, leva borboletas no pescoço e “pousadas” delicadamente em seu cabelo joãozinho.

Foto: Luana Ribeiro

 

Foto: Luana Ribeiro

 Quando perguntei a ela porque ela usa o cabelo joãozinho, ela disparou: “porque eu raspei a cabeça! Foi muita química, o cabelo caiu todo e eu tive que raspar”. Fiquei surpresa, mas seu sorriso me mostrou que ela tem sabido contornar a situação. Depois do cabelo curtinho, ela nunca fica sem usar um enfeite: “Ontem eu coloquei fuxico verde, anteontem fuxico rosa, tenho passadeira jeans com laço de bolinhas… Aí passei lá em Gildo e comprei essas borboletinhas”. Para quem não é de Salvador, fuxico é isto, passadeira é tiara e Gildo é uma loja de bijuterias – entre as dezenas que existem na cidade – lá de Castelo Branco.

Antes que eu fosse embora, Monique correu para dentro da loja: “peraí que eu vou te mostrar uma coisa”. Trouxe um caderno, desses que as meninas anotam confidências, mensagens, declarações de amizade. Nele, a lembrança do cabelo comprido de antes e otimismo de quem sabe que cabelo cresce – e qualquer coisa a gente sempre terá as borboletas.

"O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã".Foto: Luana Ribeiro

Degradê

Foto: Luana Ribeiro

 – Venha cá! Diga a ela minha relação com a fotografia?

– Nenhuma!

Foi apelando para sua linda filha Gabriela (10), que Márcia Souza, de inacreditáveis 50 anos, tentou escapar das minhas lentes, lá no Salvador Shopping. Ainda bem, não adiantou nada!

– Vai mãe, finge que não tá acontecendo nada…!!

A discrição de Márcia transparece em seu visual básico – mas interessantíssimo. Gosto da gradação de tons escuros que começa com o cinza-claro da blusa (alegrada por grafismo amarelo), passando pelo grafite da saia e chegando às meias e tênis quase pretos.

Foto: Luana Ribeiro

 

O toque da echarpe – cinza-escura! – foi indicação de Gabriela, como ela mesma entrega: “eu que disse para ela trocar a blusa e colocar a echarpe”.

Foto: Luana Ribeiro

Apesar da elegância, Márcia nega que suas escolhas sejam influenciadas pela moda. O que mais a influencia são os termômetros: ela sente muito frio. Ao ar-condicionado da clínica – Márcia é médica gastroenterologista – e ao friozinho que aos poucos chega a Salvador, devemos agradecer por essa combinação inspirada de tênis e meias opacas (adoro meias opacas), echarpe e  tons invernais.

E a sua Gabriela, agradeço a força para convencer a mamãe a posar. Valeu Gabi!

Gabriela e Márcia, formando um lindo degradê. Foto: Luana Ribeiro

O rei da rua

Foto: Luana Ribeiro

Cantando um refrão impublicável, acompanhado de umas 15 estudantes repetindo atrás. Essa foi a primeira visão que tive de Carlos Brito Silva (26), o Ném. A trilha sonora era nada mais, nada menos que um sucesso de duplo sentido da banda de pagode Saiddy Bamba. Provavelmente, aliás, ele já deve ter a coreografia na ponta dos pés, afinal, Ném é dançarino e  ensaia com duas galeras diferentes os sucessos do pagode, “pra chegar nas festas quebrando”. Mas para ganhar dinheiro, ele faz “uns bicos aí na Sete Portas”, conta cheio de ginga, como quem bem sabe dançar conforme a música.

A dança, diga-se de passagem, é o que mais faz brilhar o olho de Ném – que só é marrento na a foto, mas é todo sorridente – e não à toa, comanda também o seu visual. “Eu me visto assim ou de basqueteiro. Essas marcas tipo Cyclone deixei de usar, porque no shopping os seguranças ficam implicando “. O look de hoje foi escolhido “por causa da cor”, mas também por ser confortável “demais” para dançar, ele me conta.

Eu particularmente gosto das cores do Brasil, das chaves penduradas no pescoço e, principalmente da caixa de som de mp3 portátil, devidamente acompanhado do controle (!), que me lembrou o pessoal do break com o indefectível radiogravador sobre os ombros.

Foto: Luana Ribeiro

Ném ilustra como a influência do movimento black é presente na cidade, principalmente nos bairros de periferia, que está na roupa com inspiração no basquete; na música (“eu ouço hip-hop, pagode”) e nos costumes (o mp3 speaker é um exemplo). A diferença, nesse caso está no dispositivo, que evoluiu tecnologicamente – mas que retoma o design e o uso de antes. “Eu ando pra cima e pra baixo com ele”, diz risonho, justificando: “eu sou pagodeiro, né?”.

Enquanto a gente conversava, as meninas de lá do início do post seguiram para a escola. Mas não ficamos em paz: a todo momento paravam grupos de estudantes amigos dele, conhecidos acenavam de moto, gritavam seu nome. “Todo mundo me conhece, eu sou muito querido por aqui. Na linguagem da malandragem, eu sou o frente”,  anuncia professoral, e explica: “o frente é o que ajuda a galera. Eu ajudo todo mundo aí do ICEIA (cujas paredes grafitadas estão ao fundo), do Getúlio; como sou o mais velho, resolvo os problemas…”. Na moda, na dança ou na prosa, Ném é o rei da rua.