Souvenir

Foto: Luana Ribeiro

Por pouquíssimo, Saulo Maciel (23), em vez de estar aqui no Sotero Street Style estaria figurando no BH Moda de Rua (vale a visita). Isto porque este baiano de Bom Jesus da Lapa está morando em Belo Horizonte – e chegou recentemente do Canadá – mas, um empurrãozinho do destino o trouxe para uma passada em Salvador, para visitar a prima e  a tia, que estavam com ele quando o encontrei.

Falante e desembaraçado, Saulo sabe que chama a atenção. “Eu adoro usar saia”, afirma, de um jeito que deixa claro que não está nem aí para possíveis olhares tortos. E tortos ou diretos, eles foram muitos, enquanto descíamos a passarela do Salvador Shopping.  Ele também tira de letra a dificuldade de encontrar suas peças, encomendando os modelos que idealiza a uma costureira ou fuçando em brechós, atrás de uma saia que caiba em seu corpo.

Tanta novidade e criatividade não é à toa: ele é ilustrador e designer gráfico. “A gente chega na faculdade e encontra vários tipos de pessoa, designer de moda, designer de produto. Aí começa a ver as coisas: ‘isso eu gosto, isso eu também gosto’. Porque não usar, né?”, explica Saulo, em relação às referências que influenciam seu estilo.

Para completar, perguntei que inspirações ele trouxe na bagagem, na volta do Canadá, no que ele prontamente me respondeu que foi a coragem de usar looks diferentes sem se importar com a opinião alheia. “Se você usa uma roupa que você gosta com medo, as pessoas vão te zoar. Mas se você usa com segurança, elas podem olhar e até quem sabe se adaptar ao que estão vendo”. Eis aí uma lembrança de viagem duradoura. “Tudo é uma questão de postura”, finaliza, confiante.

Viúvas almodovarianas

É muito comum a metáfora do “Noivo” para explicar a relação da igreja com Jesus Cristo. Claro que não é noivo no sentido carnal, além da “Noiva” representar toda a igreja – porém, o amor das beatas muitas vezes lembra uma paixão humana.

Quando o noivo morre, a noiva vira viúva, certo? Na sexta-feira, em Monte Santo, fiquei impressionada com esta senhora, compungida e altiva carregava o caixão do Senhor Morto, como uma viúva almodovariana.

Foto: Luana Ribeiro

Toda de negro, bolsa chamativa, arrematada com o lenço vermelho e amarelo no pescoço, scarpin alto e_ como um viúva que se preze_ grandes óculos escuros, ela me chamou atenção com seu misto de devoção e orgulho da sua fé.

Foto: Luana Ribeiro

Depois dela, já na Matriz, vi outra viuvinha, tão dedicada quanto, recolhida em seu luto – sempre ao pé do caixão do Senhor Morto. O detalhe “Almodóvar”, que enfeita o preto total: a transparência.

Foto: Luana Ribeiro

Nesses casos, até pelo respeito que a situação exige, o estilo não parece ser intencional, e sim resultado da diligência e da “paixão” com que essas fiéis levam seu ofício. Mas, obviamente, é digno de nota. Fica o registro.

Moda com sotaque

Ontem fui ver a tradicional procissão de Monte Santo, que fica a 352 Km de Salvador. Às 4h da manhã, as matracas anunciam o início do percurso pelo pedregoso e íngreme Caminho de Santa Cruz, com cerca de 4 Km através da Serra do Piquaraçá, trazendo na volta as imagens do Senhor Morto, São João Evangelista e Nossa Senhora da Soledade para a Igreja Matriz.
 
Depois de todo essa verdadeira via-crúcis, encontrei a tímida Stephany (15) e a faladeira Jôh (16), conversando na praça. Como esta mesmo disse, elas “se vestem como as baianas, de shortinho e tênis”. Não qualquer shortinho, nem qualquer tênis, é claro – isso fica claro no All Star de cano alto e cadarço rosa de Stephany e no seu short de cintura alta, verdadeira coqueluche, pelo menos em Salvador.  
Foto: Luana Ribeiro

As tendências chegam onde menos se espera. “A gente lê muito as revistas de moda, mas aqui em Monte Santo não dá para usar tudo que vê, senão vão chamar a gente de ridícula”, explica Jôh com seu sotaque característico. Interessante ver como as pessoas se apropriam da moda e adaptam ao clima da cidade e ao seu estilo de vida. Penso que moda de rua é bem isso: local e universal ao mesmo tempo.

 
 

Dose dupla

Foto: Luana Ribeiro

A verdade é que mesmo sem ser “par de vaso”, Elisabeth Villas Boas (20) e Rômulo Aguiar (22) se vestem de forma muito harmoniosa. Os semelhantes se atraem – também. Há até um estudo de biólogos da Universidade de Liverpool que afirma que em casais, os parceiros tendem a ficar parecidos ao longo do tempo em que estão juntos.

Mas Beth nega que o estilo de Rômulo necessariamente tenha definido alguma coisa: “ele me atraiu por ter o cabelo grande, e eu gosto de caras de cabelo grande; e por ser alto, mais alto que eu”. Ela ainda não tinha o cabelo azul (“Era roxo embaixo”, lembra ele), mas já curtia um estilo confortável, com roupas mais folgadinhas.

Achei adorável – detesto este adjetivo, mas é o mais exato – os dois partilharem essa pegada rocker. A camiseta de Rômulo é da Manowar, de 1980, banda criadora do true metal (ou warrior metal), que se carateriza pelas letras épicas, que remetem a mitologia, batalhas, guerras. “Eu não escolho muito, não, pego a primeira roupa que tem pela frente. E como tenho muita camiseta de banda…”

Beth, como já foi dito já teve uma parte do cabelo roxo e já o pintou completamente de vermelho-vivo. “Sempre gostei de cabelos coloridos”. Aliás, é mais uma madeixa diferente para nossa coleção.

Todo mundo adora o Alexandre

Foto: Luana Ribeiro

Quando vi Alexandre das Neves, ágil com seus apenas 12 anos, em um posto de gasolina na Av. Luís Eduardo Magalhães, mil coisas me vieram na cabeça:  uma mistura de Chris com Marty McFly ao som de Jumpin’ Jack Flash . Quantas referências pop, vocês podem pensar. Mas é isso mesmo. O pequeno Alexandre é muito pop, mesmo que talvez não tenha consciência disso.

Talvez, eu digo, porque com sua pose aí em cima, todo malandrão, me faz pensar que ele tem sim, muita noção de estilo. Foi vê-lo e me apaixonar pela combinação de cores, o casaco inspirado nos agasalhos de times americanos (“Flying Crew Team – American League – Denver”) e o já velhinho tênis (Conga?). Mais pop impossível.

Alexandre sempre trabalha por ali, aos sábados e domingos, com seu irmão Gilmar, de 15 anos e o amigo Talisson William Silva Ferreira Nascimento dos Santos (UFA!), de 11 anos, que me fez, aliás, anotar seu nome completo na maior empolgação – “o meu é grande, moça”. Eles moram por perto, em São Gonçalo do Retiro, bairro em que, por sinal, está o famoso terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, de Mãe Stella de Oxóssi.

Alexandre, Talisson e Gilmar/Foto: Luana Ribeiro

Conversa vai, conversa vem, acabei reparando no coração flechado que Gilmar ostentava na cabeça. “Ele tá apaixonado!!!”, provocou Talisson. “Não, não, não tô não”, negou ele, envergonhado – mas pouco convincente. Esses desenhos no cabelo proliferam aqui em Salvador – há barbeiros e cabeleleiros experts nisso. Os black power já pintaram por aqui duas vezes, mas ainda tem as desenhos, as tranças… vamos vendo. 

Foto: Luana Ribeiro

Pasta na mão, ideia na cabeça

Foto: Luana Ribeiro

Com um nome tão diferente, seria desperdício se Vaguiner Braz, de 27 anos, se vestisse de forma comum. “Eu não sei me vestir de um jeito padronizado. Nem sei que diabo é isso!”. O moço faz Bacharelado em Artes no IHAC, e estava nos Barris para distribuir cartazes de divulgação de dois projetos muito interessantes que vão rolar por agora: o Claro Curtas e o Laboratório Experimentações Audiovisuais.

O Claro Curtas é um festival nacional de vídeos em curtíssima metragem – 30 a 90 segundos – usando dispositivos móveis: celulares, webcams, câmeras fotográficas digitais. O tema desse ano é “O Tempo do Agora” e as inscrições vão de 30 de março a 17 de junho de 2011. O Projeto Laboratório Experimentações Audiovisuais faz parte da programação do festival e consiste em oficinas gratuitas com os cineastas Philippe Barcinski e Marco Del Fiol sobre a elaboração de vídeos, falando de roteiro, planejamento, captação e edição de imagens e sons. As oficinas rolam de 15 a 19 de abril, então tem que correr, que já está quase na hora.

Além de estar engajado na divulgação desses projetos, Vaguiner também mexe com fotografia e recentemente trabalhou com a ONG Oi Kabum! , Escola de Arte e Tecnologia que está em outras três capitais, que foi concebida por Gringo Cardia, um dos maiores cenógrafos brasileiros. Esse repertório se insinua no seu visual, com aquele jeito moderninho que denuncia logo o envolvimento de algumas pessoas com artes em geral.